Quinta-feira, 20 de Julho de 2006

Também queria ser bombeira ou jogar futebol...

Na minha profissão também apago fogos, no entanto, nunca tive direito a aplausos ou ovações da multidão; também tenho que agir ao som da campainha e ninguém me atribui louvores de coragem; também corro perigos e combato adversidades e não oiço um elogio.

Na minha profissão também finto adversários, também corro contra o tempo, também vivo sobre pressão, também colecciono vitórias, também marco os meus golos e nunca me senti apreciada nem agraciada pelo público.

Bombeiros e jogadores de futebol são as únicas classes profissionais merecedoras de reconhecimento em conversas de café e em todos os espaços televisivos. São os heróis de uma nação triste, eternamente à espera de um qualquer Sebastião que há-de regressar da batalha para restaurar a grandiosidade há já muito perdida.

Na minha profissão também me comprometo quando os ventos mudam, também me entrego sem reservas para obter uma vitória, mas sempre que se ouve falar nela, ou o fazem com  uma condescendente piedade ou com laivos de mordaz ironia. Sinto-me barricada pela opinião pública, sequestrada por uma atitude geral que não se compadece com o esforço empreendido.

Claro está, sou professora, mas também podia ser advogada, juíza, médica, enfermeira, polícia: o discurso seria o mesmo. Neste país não se reconhece mérito e tem-se dificuldade em enaltecer seja o que for. Há sempre críticos disponíveis com a sua opinião pronta e pertinente (num país em que ter opiniões ainda está na moda); há sempre alguém com razões para se queixar em frente às câmaras; há sempre um lesado, um infeliz, um mártir com uma tragédia a explorar.

É esta atitude de nos diminuirmos uns aos outros que faz de nós tão pequenos aos olhos da velha Europa da qual, às vezes, nos lembramos que fazemos parte.

 

 

publicado por Papel digital às 09:16

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4 comentários:
De betina_a@hotmail.com a 20 de Julho de 2006 às 15:05
Aqui vai um comentário, pois então!...
Pois as tuas palavras parecem-me bem felizes. Sinto-me autora passiva da tua textualidade, apesar de ultimamente me lembrar muitas vezes do dito miserabilismo que o Marçalo Grilo sr . doutor) diz ser apanágio dos professores e contra o qual (reconhecendo-lhe realidade) tento lutar. No entanto, quem não gosta de ser reconhecido? Quem não gosta de uma palavrinha simpática que faz esquecer (ou atenua, pelo menos) as dificuldades ultrapassadas? Quem não gosta de um mimo profissional? Bons e maus profissionais há-os em todos os ramos, não tenhamos dúvidas, mas tomar todos pela mesma medida é que está incorrecto e pode ter consequências devastadoras para quem gosta do que faz, para quem se esforça, muitas vezes em condições bem adversas.
E porque a crítica (seja em forma de aconselhamento elogio) deve ser uma prática rigorosa e regular, Parabéns pelo teu blog :-)
De Rute Cunha a 14 de Agosto de 2006 às 01:40
Cheguei à pouco tempo a esse que é o mundo dos professores e já o sinto como meu. Já sinto as dores dele, já sinto as suas tristezas, sinto-as como as minhas dores e as minhas tristezas. Também gostava que vissem a minha "turma" com bons olhos nas conversas de café, mas, infelizmente, os professores continuam a ser a pior "turma" da escola da vida. Ninguém lhes reconhece o mérito, ninguém lhes dá o valor. Se calhar porque poucos são aqueles que sabem o que é pertencer a essa "turma". E muitos dos que sabem já se esqueceram e/ou preferiram passar-se para o outro lado. Eu, novata nestas andanças, cá vou continuando à espera do meu lugar ao sol. E enquanto espero vou tentando defender a profissão que um dia sonhei abraçar.
De Rute Cunha a 14 de Agosto de 2006 às 01:40
Cheguei pouco tempo a esse que é o mundo dos professores e já o sinto como meu. Já sinto as dores dele, já sinto as suas tristezas, sinto-as como as minhas dores e as minhas tristezas. Também gostava que vissem a minha "turma" com bons olhos nas conversas de café, mas, infelizmente, os professores continuam a ser a pior "turma" da escola da vida. Ninguém lhes reconhece o mérito, ninguém lhes dá o valor. Se calhar porque poucos são aqueles que sabem o que é pertencer a essa "turma". E muitos dos que sabem já se esqueceram e/ou preferiram passar-se para o outro lado. Eu, novata nestas andanças, cá vou continuando à espera do meu lugar ao sol. E enquanto espero vou tentando defender a profissão que um dia sonhei abraçar.
De Rute Cunha a 14 de Agosto de 2006 às 01:41
Cheguei à pouco tempo a esse que é o mundo dos professores e já o sinto como meu. Já sinto as dores dele, já sinto as suas tristezas, sinto-as como as minhas dores e as minhas tristezas. Também gostava que vissem a minha "turma" com bons olhos nas conversas de café, mas, infelizmente, os professores continuam a ser a pior "turma" da escola da vida. Ninguém lhes reconhece o mérito, ninguém lhes dá o valor. Se calhar porque poucos são aqueles que sabem o que é pertencer a essa "turma". E muitos dos que sabem já se esqueceram e/ou preferiram passar-se para o outro lado. Eu, novata nestas andanças, cá vou continuando à espera do meu lugar ao sol. E enquanto espero vou tentando defender a profissão que um dia sonhei abraçar.

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